book

A escrita que não é ensinável

Essa frase cabe bem para muita coisa principamente quando se pensa em escrita, ou o ato de escrever alguma coisa.

Falamos da escrita em si, de como transformar o conteúdo de uma mente pensante e que esteja de alguma forma convergente a uma direção em especial, para que haja a expressão escrita de uma forma bonita, estilosa e atraente.

Um escritor "ensina-se" a todo instante em que percebe como as palavras vão se formando na mente de maneira que a expressão delas seja definitivamente algo de raro talento ou dotado de uma destreza inominável, afinal, cada cabeça uma sentença, cada escrito uma forma nova de ver as mesmas coisas.

Como ensinar a escrever?

Observando a realidade e suas partes. Do que se compõe a realidade de um sujeito? O que está em jogo ou pode estar em jogo para ele? Como ele interpreta os fatos que lhe acontecem ou sucedem? É mais religioso ou mais calcado na natureza física? Ou ambos se não forem excludentes?

Convém notar que não estamos falando de escrita técnica, um roteiro de cinema, um romance nest-seller, um currículo vitae, uma carta de intenções, pois isso pode suceder na atividade de um redator, mas a ideia aqui é como se pode ensinar a escrever o que ainda não foi escrito.

Interpretando os fatos

Cabe ressaltar um ponto importante: como um sujeito interpreta a realidade circundante em função de sua realidade psíquica. Como pode um sujeito escrever sobre algo que não vive internamente? Como transformar uma ideia concreta em fatos ou núcleos de ação e reação. Como mobilizar literalmente o pensamento a ponto de o levár para que o outro o pense junto.

Todas essas são questões da escrita, do ato de aprender o que não se ensina tecnicamente, mas que se aprende no ofício de escrever a vida.

O sucesso de fazer história

Mais do que o sucesso comercial é o fazer história. Escrever o que não se aprende é criar o que não existia até então. A escrita tem esse poder inerente. Escreva e criará um mundo de alguma e com alguma forma. E esse mundo passará a ser um modelo com o qual formar outros ainda mais caprichados que o primeiro.

Esse é o processo corrente criativo. Criar e montar quebra-cabeças através dos quais uma lógica transpareça. Alguma coisa surpreendente ou inteligente que provoque aquele "Ah!". Isso é um processo que pode não finalizar logo, mas ter uma duração de gerações quem sabe. Tudo vai depender de fatores até mesmo aqueles imponderáveis, como o tempo, o valor da obra, o autor, descendentes, etc.

O conteúdo não se ensina

É preciso separar bem as coisas: conteúdo é algo que deve nascer da alma do escritor. Escritor aqui é alguém que incorpora a figura de alguém pensante que precisa ligar inúmeras ideias dentro de uma expressão lógica e coerente. Mesmo o dito incoerente tem seu lugar e momento. Tem a sua iluminação no fato contado.

Deve-se pensar o que escrever mas deixar aflorar a intuição do que não está escrito em lugar nenhum fora a sua mente. Aposta-se, então, na autenticidade pessoal, intransferível e apropriada a cada autor.