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A Gestação Literária

Traçar um desafio literário é que são elas. Mas um escritor precisa se manter motivado a escrever coisas que o faça feliz. Alguns traçam planos sobre histórias ou fatos políticos, sociais, morais. Sobre isso já escrevemos em outro site ao falar sobre fatos sociais, psicológicos e morais. 

Como estabelecer um desafio literário

Planejar uma história difere do gosto pessoal disso ou daquilo. Posso gostar de escrever sobre pessoas, mas vou precisar adequar isso numa espécie de moldura temporal. Isso pode me fazer ver a importância dos fatos sociais, morais e psicológicos que podem envolver aquelas personagens sobre as quais irei escrever. Mas sem ação, não há história. É o que sabemos.

Saber aqui é pleonasmo. Um escritor está sempre sabendo uma porção de coisas porque usa de sua intuição fina. Parece um radar vivo que tem uma fabulosa antena parabólica que virou digital. Sua fonte é a mesma de muitos outros escritores: O infinito do saber e da linguagem.

Importante ver que é aqui que começa o desafio: escolher daquilo que se sabe um eixo pelo qual amarrar um varal de situações que, no limite, vai aguçar a curiosidade e aprofundar a dramaticidade da personagem em função da situação na qual vive. Uma porção de coisas pode entrar nessa contabilidade, mas isso é da conta da estruturação dramática, do como tudo isso acontece de enredo a enredo.

Desafiando a descoberta da ideia

O grande desafio não fica somente em como contar uma história, mas o que gostaria de falar e por quê. Minha visão é clara e limpa de um assunto a ponto de deixar a cargo do "destino" os acontecimentos da história? Será possível me manter numa posição neutra?

Uma voz é uma voz. Tem entonação, altura, timbre. Mas a voz literária é também poderosa. Tem tudo da voz sonora acrescido de pensamento ("cop" em idish). Quer dizer, "cop" aqui nesse sentido é se valer do gênio criativo, da inteligência e da concatenação rápida que leva as associações a um plano de compreensão que gera mais compreensão por meio de associações mentais.

Fazendo estratégias para descobrir o ethos do autor

Passando a limpo o que estamos buscando:

  • Uma ideia central envolvente, isto é, que envolva uma história de "carne e osso";
  • Um assunto para envolver essa ideia a ponto de "ocultá-la" em quase toda a sua totalidade. O objetivo aqui é criar suspense;
  • Uma situação nuclear da qual se encontre uma linha de ação passível de ser explorada do ponto de vista dramático;
  • Um protagonista para uma história que possa sair dessa situação, de dentro ou de fora dela ou de algum modo relacionado a ela;
  • Uma estrutura geral dos pontos pelos quais esse protagonista terá de passar até chegar ao seu destino ou final da história;
  • Um tom narrativo (traço da voz literária) que leve os fatos a termo por meio de uma narrativa com começo, meio e fim, mesmo que não necessariamente nessa ordem.

Na realidade é o conjunto dessas ações que o "ethos" do autor, ou aquilo que ele (a) deseja falar, surgirá de modo mais abrangente. É o cenário propício para que explique sem explicar (afinal estará contando uma história e não explicando uma teoria) o que passa ali no seu coração, na sua alma, no profundo de sua verdade.

Saber o que escrever é diferente

Não, não se trata de saber o que vai se escrever pura e simplesmente, mas sim criar um meio ambiente mental do qual uma história nasça firme e forte. Como em qualquer boa gestação.

Mas vale notar que escrever uma história não é só estruturar tudo dentro de um molde X ou Y. Escrever é construção e o protagonista pode ser a tal voz literária da qual já andamos falando. Ela pode ser de tal forma rica, variada, curiosa, séria, engraçada, tímida, estrondosa, que tudo isso junto forma um protagonista que irá revelar o valor daquela ideia central que, não por descuido, ficou guardada a sete chaves como um grande segredo. O que seria isso? Quem se arriscaria a dizer que de tudo um pouco se faz uma vida? Não outro que seu próprio autor.