Uma chuva de palavras que se transforma em matéria viva

Uma chuva de palavras que se transforma em matéria viva

Não sei por que tanto conteúdo. As pessoas reclamam quando não o acham por aí. Onde andará o tal do Conteúdo?

Eu sei, eu sei, vivemos a era da forma. O invólucro tem apelo, importância, impacto. Já o pobre conteúdo serve para lustrar o bico fino da forma, que anda se achando e se deslumbrando por aí.

Coisa louca é a tecnologia com suas formas cheias de coisas mágicas. De repente, um barulho de folha se amassando e um leve apagar da tela tornam a forma cheia de conteúdo. Então para que ele?

Palavras que repetem ou corações que se lamentam por viverem tão belamente?

Ninguém sabe ao certo muita coisa. Parece que sabemos, mas é tudo uma doce ilusão. O conhecimento verdadeiro nos escapa por que sabemos que não sabemos muito quando de fato sentimos isso em nosso coração.

Uma chuva de palavras pode nem dar conta de um milésimo do que vai na alma vivente, doce e terna, que vibra ao impulso da vida. O ser pulsa irracionalmente porque deseja e arde realizar alguma coisa significativa no mundo, mas isso não lhe dá qualidade que só chega quando a razão penteia a bela de olhos coloridos.

A forma, ela mesma. Linda e quase transparente de tão etérea. Quase se dissolve ao sopro da própria vida que inspira os ares da volúpia por viver o agora.

Mas quem entende o conteúdo? Onde está ele para revelar a essência natural das coisas que vão pelo coração? Onde está aquela chuva contida de palavras que purifica todo e qualquer ar de repúdio ou de insatisfação? Apareça conteúdo e diga à forma que você a ama de verdade, mas que ainda é a pura razão.

Balcão de reclamações

A mixórdia está presente. A variedade e futilidade juntas ganham espaço. Tudo fica mais claro quando compreendemos por que as coisas vêm com embrulho. Não há mais Paraíso onde fulgurava a própria nudez da própria Criação. Ficaram no lugar a malícia, a maldade e a perfídia. Como retornar à natureza Divina na qual o ar era elemento puro de verdade?

Não há choro nem vela. Nada que possa fazer do sentimento encardido de frustrações e decepções uma colcha de retalhos que mal cobre os pés. Jogo de palavras é pobre porque nenhuma imagem ou forma pode dar melhor retrato do que uma chuva de palavras.

Não vale a pena entender por que se escreve tais coisas. Simplesmente se escreve isso porque faz sentido se indignar com a forma da forma de viver. Conteúdo que é rei só veste a coroa para discursar em vão. Não há tonalidade mais carnuda do que sentir a luminária celeste se debruçar sobre nós para enrubescer a fronte e a face da própria vida que reflete o brilho de uma alma.

O conteúdo se impõe aqui. Não há forma mais completa do que extravasar o sentido de viver na prática. A forma fica deformada porque não se sustenta frente ao conteúdo de se viver com o brilho da própria vida.

Uma chuva de palavras que se transforma em matéria viva. Uma chuva de verdade e verdadeira. Falam ao coração ou ao conteúdo do que forma as palavras. Forma e conteúdo de mãos dadas caminhando ao altar. Lá se vão os pombinhos viverem felizes para sempre. Será?